Torcedores do contra - Resenha crítica - 12min Originals
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Torcedores do contra - resenha crítica

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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

Há um prazer específico e sórdido no futebol. Ver a seleção rival, a poderosa e antipática, cair diante de um time sem tradição, um estreante em que "ninguém" colocava fé, rende uma alegria que não cabe no peito, às vezes temos que destilá-la nos posts e risadas altas. É a vitória de quem não jogou. E existe o avesso desse prazer, o incômodo de ter do próprio lado alguém que deveria torcer junto e, mesmo assim, escolhe o outro lado, azedo, às vezes com um sorriso meio vilanesco, só para contrariar.

Vamos voltar um pouco nesse pensamento, vamos viajar primeiro pelas improváveis amizades entre nações. O futebol faz alianças estranhas. Em 2018, quando a Coreia do Sul venceu a Alemanha por dois a zero e derrubou os campeões, quem comemorou de verdade foi o México, que seguia vivo na Copa graças ao resultado. Milhares de mexicanos marcharam até a embaixada coreana, carregaram o cônsul nos ombros e o saudaram como um irmão. "Coreano, hermano, ya eres mexicano." A amizade entre as duas torcidas dura até hoje.

Há laços ainda mais improváveis, escritos em sangue e em constituição. Em 1802, Napoleão enviou cerca de cinco mil soldados poloneses ao Haiti para esmagar a rebelião dos escravizados. Muitos deles, ao perceber que reprimiam uma luta por liberdade parecida com a que travavam em casa, trocaram de lado e lutaram junto dos haitianos contra a França. A constituição haitiana de 1805 concedeu cidadania a esses poloneses, e uma comunidade de descendentes vive no país até hoje, com centro em Casale. Mais de dois séculos depois, o Haiti não esqueceu, e leva a Polônia estampada na camisa.

Torcer contra é maior que o futebol, e mais antigo. A pergunta que quase ninguém faz é se essa vontade de ver dar errado tem motivo. Quando tem, ela cumpre uma função útil. Quando não tem, cobra um preço que raramente é levado em consideração.

o prazer é real no erro dos outros

Tem até uma palavra dedicada a isso. "Schadenfreude" é um termo de origem alemã que descreve o sentimento de alegria ou satisfação gerado ao observar o infortúnio, fracasso ou a desgraça de outra pessoa.

O alívio de ver o outro tropeçar, não é anomalia rara nem defeito de caráter. Ele acende as mesmas regiões do cérebro que respondem a dinheiro e comida. O estriado ventral, principal centro de recompensa do cérebro, se ativa durante episódios de schadenfreude, de forma parecida com comer chocolate ou ganhar dinheiro.

O experimento mais famoso sobre isso saiu de Princeton, com torcedores fanáticos de Yankees e Red Sox dentro de uma máquina de ressonância. Quando o time rival falhava, mesmo contra um terceiro time neutro, sem nenhum benefício direto para o time do torcedor, o estriado ventral se ativava. E o dado terrível tirado disso era que: essa mesma atividade se correlacionava com a disposição declarada de agredir os torcedores do time rival. O prazer de ver o outro cair e a vontade de empurrá-lo moram no mesmo bairro.

Há um ingrediente que dá o tom de tudo. A inveja e o schadenfreude andam juntos: quanto mais forte a inveja sentida antes, mais intenso o prazer quando a pessoa invejada tropeça. É por aí que a moeda começa a mostrar as duas faces.

a face com motivo: quando torcer contra protege alguém

Existe uma torcida contra que sustenta a vida em comum. O jogo do ultimato é um dos experimentos mais replicados da economia comportamental. Alguém recebe uma quantia e propõe como dividir com outra pessoa. Se a outra recusar, ninguém leva nada. A lógica manda aceitar qualquer migalha, afinal é melhor meio pão do que pão nenhum, né? É melhor que nada. As pessoas, no entanto, recusam ofertas injustas mesmo com custo para si mesmas, contrariando a hipótese do puro interesse próprio. Preferem perder a deixar passar o desaforo. Esse torcer contra tem endereço e razão: pune quem quebra a regra e, ao punir, mantém a regra de pé para todos.

A mesma engrenagem aparece no trabalho intelectual. O termo groupthink foi cunhado por Irving Janis para descrever grupos que decidem mal porque ninguém quer discordar. O antídoto clássico é institucionalizar quem torce contra a ideia da maioria. A pesquisa de Charlan Nemeth mostra que designar um advogado do diabo pode aumentar em sessenta e um por cento a consideração de alternativas. E não se trata de firula acadêmica: o trabalho de Amy Edmondson, em Harvard, mostra de forma consistente que times que priorizam a harmonia em vez do debate honesto tomam decisões piores. Aqui torcer contra vira crítica, e crítica é o que segura a mão de quem tem poder demais e contestação de menos.

Nas duas cenas, quem torce contra não quer que o outro sofra por sofrer. Quer justiça, ou verdade, ou uma decisão melhor. O alvo é o erro, não a felicidade alheia. Complexo, né?

a face sem motivo: inveja, spite e o corte da papoula

A outra face aparece numa versão do jogo do ultimato que separa o joio do trigo. Certos participantes recusam ofertas desiguais não por justiça, mas para reduzir o ganho do outro, dispostos a destruir o prêmio inteiro só para que ninguém fique acima deles. Os pesquisadores chamam isso de spite competitivo. O sujeito rancoroso prefere um resultado de zero a zero a um resultado em que ele fique abaixo do parceiro. Melhor todo mundo perder do que ver o outro ganhar.

Quem sente isso com mais força costuma se encaixar num perfil já mapeado. Pessoas com pontuação mais alta em narcisismo, maquiavelismo e psicopatia relatam prazer mais forte e mais constante diante do fracasso dos outros. É tendência, não um diagnóstico. E há um custo silencioso: o schadenfreude frequente e intenso se correlaciona com relações de menor qualidade e com menos comportamento pró-social.

No plano coletivo, esse veneno tem até nome de jardim. A síndrome da papoula alta descreve o hábito de cortar quem cresce demais, para que a pessoa volte ao tamanho dos outros. O maior estudo sobre o tema, liderado por Rumeet Billan, ouviu mais de quatro mil e setecentas mulheres em cento e três países. O resultado é: quase noventa por cento relataram ter as próprias conquistas atacadas ou diminuídas no trabalho. A expressão nasce de uma imagem antiga, de um tirano romano que decepou as cabeças das papoulas mais altas do jardim para mostrar ao filho o que fazer com quem se destaca.

como saber de que lado da moeda você está

O teste vale para o jogo, o show e a promoção do colega: a pergunta é o que se quer de verdade. Querer que o outro seja corrigido, contestado ou responsabilizado é torcer contra um erro, e isso tem valor. Querer apenas que o outro caia, sem que nada de bom resulte da queda, é território do spite, e o único ferido garantido é quem sente.

As manias denunciam. Quem torce contra por inveja move a trave: se o artista acerta, o mérito vira sorte; se erra, vira prova. Prefere o empate por baixo à vitória alheia, mesmo quando essa vitória não lhe tira nada. E existe a parte que corrói por dentro. A dopamina de rir de quem está sofrendo pode ter qualidade viciante, como no caso de quem faz da fofoca e da alfinetada um hábito, e, com o tempo, a parte racional do cérebro tende a ceder espaço para as emoções mais primitivas. O torcer contra sem motivo educa quem o pratica para gostar cada vez mais dele.

o que fazer com essa informação

Quem lidera uma equipe pode tratar o advogado do diabo como a versão produtiva do torcer contra. Institucionalizar a contestação nas decisões, com papéis que giram, evita que a crítica vire birra pessoal. E vale observar o spite competitivo: quando alguém prefere afundar o projeto a ver o colega brilhar, o custo é do time inteiro. Ligue o alerta.

Quem acompanha o debate público pode usar a distinção como filtro do noticiário e das redes. Separar quem torce contra o abuso de poder, com motivo, de quem torce contra a felicidade, que é outra coisa. A primeira sustenta a vida pública. A segunda apenas a envenena. Mas isso só se revela com análise, paciência e identificação dos padrões acerca do assunto.

E, no plano íntimo, esperar o tropeço alheio de vez em quando não é sinal de que há algo de errado com ninguém. É um circuito antigo, comum, e somente mais barulhento quando a inveja aparece antes. Notar a inveja por trás da torcida já tira dela boa parte da força, no final das contas não faz mal na maioria esmagadora dos casos.

A moeda tem duas faces e uma só borda. Torcer contra o erro, a injustiça e o abuso é o que impede o mundo de virar um coro de concordâncias. Torcer contra o acerto, a beleza e a alegria do outro é um prazer emprestado, tomado da conta alheia, que sempre vence quem o sente. A diferença não está na intensidade do sentimento, e sim na resposta a uma pergunta: se o outro cair, alguém além de quem torce ganha alguma coisa? Quando a resposta é sim, pode torcer. Quando é não, daí a responsabilidade é de cada um.

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